Não sou perfeita

"Eu poderia ter cabelos lisos, rosto oval, olhos azuis ou ate verdes, labios finos e um otimo senso de humor. Mas não tenho, e me aceito por isto. Tenho amor próprio o suficiente para não me admirar ao espelho. Mudei de país em país, juntando experiencia e conhecimento. Estudando. E em todos os países, homens caíram aos meu pés. Porque?! Não sou tão bela assim. Este é o motivo de não encarar o reflexo no espelho. 

Sempre triste, afinal eu de alguma maneira desgraçava a vida destes homens. Eles faziam loucuras, pelo amor que eu nunca senti. Era horrível, mas era minha vida. E quando eu aceitei meu destino, a desgraça aumentou. Sempre me mudando para os outros países, deixando corações partidos e lagrimas. Não faça porque quero, no caso, eu não faço nada.

Eles apenas aparecem, e eu aprendi muitas coisas com isto. Por mais que eu não ache meu físico bonito, sei que por dentro devo ser melhor que por fora. Eu creio que havia um plano maior para mim. Algo mais que a terra. Que os homens. E então mais um homem sucumbiu aos meus horríveis encantos. Oque haviam nos olhos destes malditos homens?!

Justin. Este era o nome dele. Cabelos loiros, olhos claros e uma expressão de confusão no rosto. Ele tinha tudo para ser um executivo de sucesso. No caso, ele era mas..só, estava cansando. Eu o vi quando atravessou a rua sem olhar para os lados, e entrou na cafeteria. Sem ao menos esperar, sentou-se a minha frente. Continuei lendo, pois ele iria falar. E então ele desabou, o homem desabou a minha frente. Eu apenas disse o que tinha de dizer, o que nunca ouviu da boca de ninguém. Era a minha função. Ajuda-lo, e a todos que viessem ate mim. Como minha mãe diz: Nada é a toa. Ela quis dizer, que nada é por acaso. E eu bem sei isto. Enfrentei diversas situações constrangedoras para qualquer um, menos para mim. Um homem acabou o casamento ao me ver na rua, outro correu por toda a praia me procurando.. entre muitos outros nada que eu pudesse comentar.

Quando Justin retornou à cafeteria me procurando, foi esclarecedor. Ele havia sucumbido à mim, mais um… Eu não queria acabar com a vida deste homem, mas eu queria ajuda-lo. Quando sua audácia destruiu seus pensamentos sensatos e seus lábios tocaram os meus… eu parei de respirar. Nenhum dos homens conseguiu beijar-me, ou teve tanta coragem. Ver seu corpo tenso, enquanto eu contava que sabia sobre seu recente quase-casamento. Uma secretaria, a unica mulher mais proxima do meu físico, ele aceitou casar-se. Iludindo com fervor a mulher, mas então conseguiu ver o rosto da mulher. Ela não era eu. Sei disto, porque estava lá. Em pé, próxima da porta da igreja, mas sai antes de sua resposta. Justin era um homem, previsível. Completamente previsível. O levei para meu lugar favorito na cidade, uma pequena biblioteca onde juntavam livros achados nas ruas. Otimos livros, ate dos seculos XIX e tinha um soneto de Shakespeare! Nada poderia ser melhor que aquilo. 

Ele soube do intercambio, e quase enlouqueceu. Não me abalei, afinal nunca menti. E ele me colocou contra a parede, prestes a me beijar. “Não seja tolo de cometer tal ato!” E ele me respondeu, sorrindo:"Tolice faz parte da realidade humana." Então não seja humano. As vezes Justin era inteligente. E em outras, cego. Sentimentalista, romântico e audacioso. Ele era tudo isto e muito mais. Não poderia de maneira alguma, dizer que não gostei de seus beijos. Era bom, ter sua boca na minha, seus braços ferventes enroscando-se suavemente em minha cintura e suas mãos em meus cabelos. A sensação de tê-lo perto, era boa. Sei que existem mais adjetivos, mas bom era o que se classificava. E então tive de ir embora, longe de seus beijos, seus braços, dos cafés amargos e dos livros. Desta vez, seria tão dificil para mim quanto para ele. Eu nunca tive dificuldade de me desapegar, afinal nesta vida era necessario. Mudei a vida do Justin, tornando-o ágil, astuto, instigante, sincero e acima de tudo feliz. E ele mudou um pedacinho da minha. Justin havia se tornado um homem admirável, antes era cansado agora tinha mais força e determinação do que tudo. E ele foi ao aeroporto, na hora certa. Me tomou em seus braços, e me beijou pela ultima vez. Ele me deixou ir, a mala pesava em minhas mãos. Não pela pouca quantidade de roupas, e um livro. Sim porque nela, eu carregava todos os corações que parti. Era meu fardo mais pesado, vagar pela terra carregando os corações que destruí caminhando para longe dos respectivos donos que esperavam ansiosamente pela minha volta. Mais eu nunca ia voltar, para nenhum deles. Não tinha como livrar-me do peso, afinal era o céu que eu tinha que segurar. O meu céu. Irrefutável. Quando sentei na poltrona do avião, refleti. Ele havia me deixado ir, mesmo que doesse por dentro, rasgasse seu coração e dilacerasse seus sentimentos. Era minha vida, ele tinha que deixar. E como todos os outros, ele ficou ali esperando-me embarcar com os olhos cheios de esperança, mas Justin foi o único a beijar-me, tocar-me, me libertar, deixando apenas a determinação nos olhos. Ele iria atras de mim, quando pudesse. Ele me amava. Morri sorrindo. Porque encontrei meu amor, mas ele não viria atras de mim. Não são quilometros, ou o oceano que nos separa. Eu nunca sentia amor, mas só de ver seus olhos claros brilharem e o tom da sua voz diminuir quando se aproxima de mim da uma vontade de amar também. Principalmente quando, parece que ele iria desmaiar apenas com meu olhar. Não sentiria saudade, porque meu maior desejo estava sendo realizado. Ser livre. De todos os homens que me desejaram, dos corações destruidos, do amor não correspondido, da terra…